- Eu não sei se você sabe mais eu tô passando por uma
situação difícil e conturbada, hoje quando eu te via aqui lendo um
livro que eu te dei a anos atrás, ele lembrei do que tem escrito ai na capa,
lembrei do que eu escrevi, lembrei que eu te disse que você era como uma irmã
pra mim, lembrei que eu disse que te amo - ele chorava - hoje vendo você aqui
percebi o quanto me fechei pra você depois daquele dia, sei lá eu fiquei com
raiva e comecei a gritar com você, me desculpa eu estava fora de mim, eu sei
que você só queria me ajudar, infelizmente demorei para perceber.
- Desculpa - foi a única coisa que consegui esboçar.
- Do que você está pedindo desculpa? Eu estava andando com aqueles
caras, eu sabia o que eu estava fazendo.
- Desculpa por não ter te ajudado, depois daquela briga, eu só te
liguei algumas vezes, e deveria ter ido atrás de você se eu tivesse ido, talvez
você não estivesse assim...
- Assim? Assim como? Usando drogas?
- Desculpa...
- Lu, eu queria estar "assim", do jeito que você está
falando, se comparado à situação que eu tô hoje.
- Do que você está falando? - eu já chorava - O meu orgulho me
impediu de ir até você.
- Cala a boca - disse ele enxugando minhas lágrimas -
pelo visto você continua falando muito.
O sinal tocou, e ele levantou do meu colo e me abraçou...
- Vai lavar o rosto, gorda. E ir pra sala que sei que sua aula é
de física e você está precisando de nota.
- Vai pra sua aula também.
- Já estou indo, mamãe. - disse ele fazendo biquinho.
Eu passei a aula toda querendo saber o que tinha acontecido, e ai
o sinal tocou, acho que uma aula nunca demorou tanto, antes mesmo de a
professora terminar de falar eu já sai da sala indo atrás dele, rodei
aquela escola toda e não achei, eu não sabia mais o que estava sentindo. A
minha sala ficava no andar superior, e quando eu olhei pela janela ele estava
pulando o murro lateral do colégio, ao encontro de uns dez carinhas mal
encarados. Eu comecei a gritar o nome dele, mais foi em vão, pela distância que
eu estava. Eu comecei a ligar no celular dele e só dava caixa, caixa, caixa. Eu
já estava louca de raiva. Eu comecei a orar por ele. Sai do colégio dei um
pulinho em casa tomei um banho, meu namorado tinha feito o café, agente comeu e
contei a ele a situação em que Rodrigo estava ele disse que o que agente tinha
que fazer era orar por ele. Fui dormi um pouco, e algumas horas depois, uma
colega de trabalho me liga, dizendo que tinha que ir pra Camaçari por que o
irmão dela tinha sumido, e perguntou se eu podia assumir o turno dela, na emergência.
Eu fui. Eu mal vestir o
jaleco, já tinha uma ambulância do SAMU chegando ao hospital, o
medico estava na sala do conforto dormindo, naquele momento meu coração
apertou, eu nem sabia do que se tratava, pensei "Besteira era só um pensamento
normal." Afinal aquele era o meu trabalho e eu lhe dava com muitas
situações ruins. Eu mal sabia o que me esperava. Os maqueiros foram pegar o
paciente, era um jovem e ele estava baleado. Fui chamar o médico, ele acordou,
expliquei do que se tratava enquanto ele lava o rosto e saiu em disparada, em
direção ao corredor da emergência, fui atrás dele, ele
me instruía sobre o que fazer, enquanto os técnicos traziam as
informações. Havia uma quantidade enorme de policias na recepção do hospital.
Com essa afobação toda ainda não tinha percebido que estava ali, acho que vocês
já devem imaginar, nesse momento eu dei todo o meu gás, ele tinha levado um
tiro na virilha a preocupação do Doutor era esse tiro ter pegado a artéria
femoral. Ele estava desacordado, eu chorava muito, mais fazia tudo o melhor
possível. Ele tinha pulso, essa era a esperança dos médicos uma vez que um tiro
nessa artéria pode matar eu instantes, eu só consegui imaginar que quem deu o
tiro sabia disso. Depois de horas na sala de cirurgia ele estava melhor,
mais precisa de sangue. Depois de vários exames eu doei. Ele já estava melhor,
eu não sai de perto dele, enquanto do quarto onde ele estava eu liga pra
recepção pedindo pra que a Larissa ligasse, pra família dele, ela me avisou que
o pai estivera ali o tempo todo muito apreensivo, desci pra recepção e pedi
para que os enfermeiros ficassem com
ele. Quando eu desci o pai dele me abraçou forte e chorava, eu chorava
junto com ele. Ele estava fardado, o pai dele era um PM, e me pedia desculpa,
ele disse que estava orando tempo todo, eu expliquei que ele estava bem, e que
a recuperação iria ser um pouco lenta mais ele não corria riscos tão graves,
ele me convidou para comer com ele, ele disse que precisava conversar no
comigo. Eu via nos olhos daquele pai, um grito de socorro, ele estava muito
abalado e fui eu queria acalma-lo, ele queria ver o filho, mas, não era
permitido. Fomos para copa do hospital, ele retirou a arma colocou em cima da
mesa, tirou o colete, e com a mão apertando a cabeça, o rosto vermelho e
molhado de lágrimas começou a falar, a desabafar:
- Eu quase matei o meu filho, eu sou
um monstro, eu não queria fazer isso, eu juro que eu não queria, eu quero ver o
meu filho, por favor, eu preciso dizer que eu o amo. Como é que eu pude fazer
isso, você sabe o que é carregar o seu filho baleado nos braços gritando por
socorro, sabendo que a bala que esta alojada nele, é à bala na sua arma, a arma
que foi empunhada por mim, em pensar que eu atirei nele... Eu ia matar o meu
filho, matar, matar. Meu Deus me perdoa.
Ele estava visivelmente confuso e eu
só sabia chorar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário